Desenredos do Mundo

Olá!

Estamos lançando nosso segundo número da revista Desenredos do Mundo de forma gratuita para compartilhar cultura e arte com vocês.

Nesse número temos uma seção especial, sobre arte e meio ambiente.

Comentem, deixem suas impressões.

Abraço,

Gabriela Raizaro

Editora.

Literatura Indígena: arte ou resistência?

Daniel Munduruku e autores contam histórias indígenas no Sesc

por Gabriela Raizaro

A Literatura Indígena Brasileira é marcada por autores que passaram por uma vida acadêmica constituindo um curriculum interessante e uma base sólida de conhecimentos formais, muitas vezes adquiridas em universidades brasileiras renomadas.

Temos mais de cem autores indígenas brasileiros que escrevem sobre temas e assuntos diversos, sempre valorizando suas raízes e produzindo arte e conhecimento com um olhar crítico para a realidade.

Dentre eles podemos citar Ailton Krenak, Daniel Munduruku, Kaká Werá, Márcia Kambeba, que produzem histórias por meio da palavra escrita e se sobressaem com poesia, prosa, estudos científicos e diversas reflexões e conhecimentos importantes para o nosso tempo.

Marcados pela oralidade, os povos indígenas trazem para a palavra escrita uma linguagem simples e bela que se apresenta de forma poética e cheia de figuras de pensamento que enriquecem a experiência com o texto.

Nesse ensaio, especificamente, falaremos sobre a obra de Daniel Munduruku, autor de mais de 50 livros, ganhador de dois prêmios Jabuti, doutor em linguística pela USP e presidente do Instituto U’ka Casa dos Saberes Ancestrais.

Seus livros circulam entre pessoas de todas as idades e trazem conhecimento e história com leveza e simplicidade, se tornando acessíveis para todas as idades, além de serem um material de pesquisa que possui muitas informações relevantes que levam o leitor a diferentes grupos étnicos, muitas vezes desconhecidos do homem ocidental.

Um exemplo desse tipo de literatura é a obra Um dia na aldeia, escrito por Daniel Munduruku e ilustrado por Maurício Negro, fala sobre o dia de uma criança Munduruku e como ela lida com seus afazeres diários dentro dos costumes culturais da aldeia indígena .

Durante a história, Manhuari, personagem principal deste enredo, pronuncia várias palavras da língua Munduruku, pertencente ao tronco Tupi, mas que pelo contexto da narrativa acabam se tornando compreensíveis para o leitor leigo (mas para os minuciosos, há espaço com todas essas palavras no final do livro com a definição de cada uma das com os seus respectivos significados).

Ao longo do enredo, todo contado em terceira pessoa, aparecem algumas narrativas religiosas do povo Munduruku (algumas delas são bem parecidas com as de outros povos): os avisos que carregam os jexeyxeys (sonhos) e a preocupação em manter uma rotina adequada que vá ao encontro da tradição para “manter o céu suspenso”. Essas ideias aparecem de forma poética em meio ao dia permeado por tarefas cotidianas.

Nesse e nos demais livros escritos por Daniel Munduruku, poesia e tradição se misturam aos elementos cotidianos colocando o leitor em contato com uma perspectiva na qual indígenas contemporâneos conservam e respeitam seus costumes sem deixar de aprender e se modificar ao longo das suas experiências no mundo contemporâneo.

E nessas narrativas, a natureza não é um elemento sob a responsabilidade dos povos indígenas, mas plantas, animais e recursos naturais são elementos que possuem o direito de existir e devem ser respeitados porque cada ser possui seu devido espaço e função no mundo.

Ao entrarmos em contato com a obra de Daniel Munduruku, somos levados a pensar que é desnecessário considerar que o ser humano é responsável pela preservação de tudo o que é diferente de si, pois a relação de respeito com os elementos do meio ambiente deve ser criada com bases firmes a fim de que naturalmente vejamos plantas e animais como seres que têm o direito e existir e não necessariamente servem ao homem, mas coabitam o mesmo ecossistema do qual ambos provém e necessitam para continuar a existir.

Diante disso, o homem depende do ecossistema para viver uma vida saudável e longeva e consequentemente deve ter uma ação consciente em relação ao consumo dos recursos naturais para que a sua subsistência não seja a sentença de morte das outras formas de vida que ocupam o planeta.

Então a literatura indígena é ambas as coisas: arte literária e resistência.

Até a próxima!

Brasil e China: intercâmbio cultural em entrevista com Rony Giah

Entrevista realizada por Gabriela Raizaro Tosi

Roney Giah é um compositor, cantor, guitarrista, produtor musical e diretor brasileiro, fundador e CEO da Doiddo Filmes, nascido em São José dos Campos em 11 de agosto de 1974. Super simpático e aberto, nos concedeu essa entrevista disposto a compartilhar o muito que sabe.

Na Doiddo Filmes, Roney Giah dirigiu filmes e projetos para agências como WMcCann, Young &Rubicam, Havas WW, Mullen Lowe Brazil, Giacometti Comunicação, para marcas como NET, Nestlé, ASICS, TNT Energy Drink, Merck Sharp & Dohme, TELECINE, entre outras.

Como músico, artista e produtor de conteúdo, Roney Giah lançou 10 CDs e foi reconhecido pela Billboard Awards e John Lennon Festival Award, assim como pelo Prêmio VISA e também criou e desenvolveu uma séria animada – Escolinha de Deuses – selecionada pelo canal 21st Century Fox, em 2018.

Desenredos – Qual é a aceitação da cultura brasileira pelos chineses?

Roney: A língua é o maior impeditivo, mas com o advento do Netflix, 80% das pessoas consomem dublagem.

Sinhá Moça, novela brasileira que teve grande aceitação na China, mas a censura desse país faz com que haja a necessidade da edição na novela.

A Lucélia Santos é celebridade na China por conta da repercussão da nova, tamanha a aceitação que ela teve.

Desenredos – Qual é a porta de entrada para o mercado brasileiro via cinema?

Roney: Pelo cinema se vende cultura, se cria novos empregos e se vende qualquer tipo de produto.

O Brasil utiliza pouco desse recurso (da produção cultural para a China).

Desenredos – Temos know – how para produzir cinematograficamente em qual estilo?

Roney: Temos muita experiência em teledramaturgia, não tem motivos para utilizarmos tão pouco desse recurso. As nossas novelas são boas e fazem sucesso mundialmente.

Mas falta incentivo governamental para perceber e utilizar a nossa experiência para ganhar espaço no mercado.

Desenredos – Como a cultura ancestral e a modernidade convivem no contexto cultural chinês?

Roney: A China é um país de cultura milenar que possui um governo que investe, mas que também é protecionista.

Há muito investimento em tecnologia e isso atrai muitos estudantes e profissionais do mundo todo.

Desenredos – Os economistas afirmam que a China está abrindo o seu mercado para o cenário econômico internacional. Será que eles também permitirão a entrada de produtos culturais estrangeiros (música, filmes, etc.)?

Roney: Esse mercado na China é muito fechado, prova disso é o alto investimento da Netflix em séries em mandarim.

É um país muito antigo e com muita base cultural, mas que investe muito no que está em alta no mercado exterior porque a economia chinesa possibilita que isso aconteça. Nesse sentido, há muitos países ricos que não tem essa sacada.

Desenredos – Qual é a forma que os chineses usam para retratar o cânone nas produções contemporâneas?

Roney: Todas as produções de época deles possuem figurinos muito bonitos, cenário muito bem trabalhado e tudo isso custa muito caro.

Como eles possuem uma cultura fechada, têm o hábito de produzir muito e cada produção deles é muito longa.

Um caminho para que os brasileiro sejam consumidos nesse mercado é a co – produção.

Desenredos – Por que você escolheu a China para o seu artigo sobre China e Hollywood?

Roney: Porque notei a China presente em algumas produções e porque é um caminho pouco explorado. Também acho que é preciso chamar a atenção para essa possibilidade ainda pouco explorada porque o cinema é um meio de vendas e de expansão.

Entrevista realizada em setembro de 2019.

A Era dos Super-Heróis: crise do ser ou retorno ao escapismo?

Pois é…

Super-heróis… quem nunca não é mesmo?

Então vamos tratar sobre uma série, disponível no Netflix, e partir para o debate:

Agente Carter

A série cujo nome dá o nosso subtítulo, foi lançada em 2015, exibida inicialmente pela ABC, essa série trata da personagem Peggy Carter, interpretada por Haylley Atwell,  em retomada da sua vida logo após o acidente com o seu amado Steve Rogers, Capitão América.

Peggy luta para ser respeitada no seu departamento, assim como seu colega que ficou manco após um acidente na guerra, Daniel Souza, interpretado por Enver Gjokaj.

Ela se envolve clandestinamente em uma investigação, a pedido de Edwin J.A.R.V.I.S., mordomo de Howard Stark, para saber quem roubou suas valiosas e muito perigosas invenções.

A moça é determinada e tem uma força emocional imensas, mas não é valorizada pelos seus colegas de trabalho e, por ser mulher, fica sempre com tarefas secundárias.

Desse modo, Peggy consegue fazer sua investigação clandestina sem grandes problemas, pois não é vista e lembrada como os “grandes” agentes o são.

Na segunda temporada, a Agente Carter precisa descobrir o que faz com que cadáveres sejam congelados de dentro para fora e por qual motivo essa tecnologia foi desenvolvida.

Acaba por conhecer um cientista que a encanta, e o ajuda a se recuperar de um acidente sofrido enquanto continua, com a ajuda dele, a tentar solucionar o caso.

Por ser uma série muito interessante em diversos aspectos, não traremos spoilers, pois acreditamos que os espectadores desse enredo têm muito a ganhar com ele.

 

Escapismo ou crise do ser? Por qual motivo as pessoas voltaram a se interessar tanto pelos heróis?

Os super-heróis fazem parte da nossa história, seja na infância, na adolescência ou na vida adulta mesmo.

Várias pessoas consomem esses enredos na vida adulta e gostam muito, pois os personagens possuem algo que dialoga com as pessoas. Principalmente quando retratam seus problemas e o lado solitário da sua vida de “sucesso”.

Talvez por esse motivo os super-heróis estejam fazendo tanto sucesso recentemente?

Qual motivo será esse do qual estamos tratando?

Bem… na fase das redes sociais em alta, na qual as pessoas expõem seu aspecto mais feliz e radiante, falta espaço para a tristeza, para a solidão. Torna-se impraticável a vida solitária, ou a tristeza, pois a autoafirmação tem seu espaço aconchegante nos likes e nos follows que recebemos (deixo o link de uma palestra sobre o assunto abaixo, do historiador Leandro Karnal, sobre o assunto).

Na trajetória dos super-heróis, a tônica se encontra no lado sombrio de uma vida aparentemente perfeita, pois o Super Homem é belo, forte, dono de uma personalidade cativante, mas órfão e cheio de problemas relacionados à sua vida social. Temos também o caso do Capitão América, outro homem bonito, que possui qualidades invejáveis, mas que não conseguiu ficar com o amor da sua vida, perdeu o melhor amigo e se encontra sozinho em uma época que não é a sua.

Quanto ao universo feminino, podemos citar Jessica Jones, que viveu boa parte da sua vida sozinha, atormentada pelo medo de ser torturada novamente pelo seu arqui-inimigo, Killgrave, o Homem-Púrpura. Também podemos citar a tão bela Mulher-Maravilha, que perde o amor da sua vida e vive boa parte dela sozinha e isolada. Embora essas duas personagens tenham romances significativos ao longo das suas histórias, o que predomina é a solidão e o desespero em uma vida a sós.

Talvez, o excesso de “felicidade” e “momentos felizes” que se propagam pelos nossos computadores e celulares tenham nos deixado saturados de uma imagem parcialmente real.

“Parcialmente” é o termo escolhido para esta temática porque a vida os contém também, talvez não com a frequência que se tentam mostrar, ou provar nas redes sociais, mas sim: o ser humano possui diversos momentos felizes ao longo da sua vida.

Interessante notar que, o momento no qual essas narrativas voltam à tona também é o momento no qual as crises políticas e econômicas eclodem pelo mundo de forma avassaladora, pois a liberdade de expressão auxilia os jornais na sua função de informar e desnudar situações, deixando seus espectadores e leitores num misto de perplexidade e esgotamento.

Talvez, essas crises tenham contribuído para um estado de saturação da realidade, da qual desejamos escapar porque não consigamos enxergar uma situação prática e palpável, no momento, que nos leve à solução dos problemas.

A questão para a reflexão é: o retorno aos heróis é causa da vontade de escapar de uma realidade desgastante ou é o resultado da era da “felicidade virtual”?

Embora essas questões sejam interessantes, não deixemos de nos apaixonar pelo enredo dos super-heróis, eu, particularmente, adoro as séries e HQ’s sobre eles.

Neste sentido, da paixão aliada à reflexão, temos aqui uma sugestão de plano de aula para diversas disciplinas e projetos escolares.

Bacana, né?

Até o próximo enredo!

por Gabriela Raizaro

 

 

Links:

Sobre a felicidade nas redes sociais, com Leandro Karnal: https://www.youtube.com/watch?v=T9StQLF7lZg

Site da Marvel, para pesquisar seus personagens favoritos: https://www.marvel.com/

Site da DC, para pesquisar seus personagens favoritos: https://www.dccomics.com/

Desenredos do Mundo em Revista

Caro leitor,

Iniciamos com muito carinho a Revista Desenredos do Mundo como uma proposta gratuita que busca compartilhar cultura, conhecimento e arte com todos os que estiverem dispostos a se permitir o contato com o novo.

Formamos uma equipe plural e multiprofissional que abraça a diversidade e a valoriza em prol de um periódico que trabalha com novas perspectivas.

Esperamos que gostem!

Equipe Desenredos do Mundo

O amanhã não está a venda de Ailton Krenak: a humanidade sob uma lente

 

O amanhã não está a venda - Capa

A obra escrita por Ailton Krenak, O amanhã não está a venda, publicado em abril de 2020, pela editora Companhia das Letras, traz uma reflexão profunda sobre a pandemia da SARS-COV 2, popularmente conhecida como COVID-19, que causou um período de distanciamento social e lock down em algumas regiões do mundo.

O autor analisa sob a ótica de quem vive em um ambiente natural, longe dos centros urbanos e populosos, a necessidade de isolamento e distanciamento cuja repercussão educacional, econômica e ambiental ainda não são mensuráveis, mas que causa diversos tipos de discurso nos ambientes político e empresarial.

Nessa obra, Krenak expõe a necessidade de que o homem se reveja, repense sua estrutura social e seu modo de vida.

Embora o texto tenha sido por um homem brasileiro, indígena, mineiro, proveniente do século XXI e do ambiente acadêmico, sua obra expõe a humanidade para o leitor para além do seu lugar no mundo, ampliando horizontes como se o texto fosse uma lente olho de peixe de uma câmera Go Pro, cujo foco não se limita para onde o fotógrafo aponta porque a sua capacidade de captura alcança um ângulo de 180º.

Quando Ailton Krenak chama os apartamentos de “moradia artificial”, fala que o nosso consumismo e os crimes ambientais que cometemos fazem parte de uma sociedade desligada do seu planeta e do ecossistema do qual faz parte.

Nos chama à razão quando nos lembra que somos apenas uma das espécies que ocupam o planeta e não os soberanos da Terra nos fazendo pensar em diversos momentos nos quais o homem interferiu no ecossistema e causou danos irreparáveis ao planeta.

Diante disso, menciona os “acidentes” naturais ocorridos em decorrência do rompimento de barragens (segundo artigo sobre o assunto disponibilizado pelo UOL, a cada dois anos esse fato se repete):

Até a publicação do livro, seis rompimentos haviam ocorrido entre 2006 e 2015. Com Brumadinho, esse número é de ao menos sete. “A tabela precisa ser atualizada agora com Brumadinho”, afirmou ao UOL um dos autores do livro, o doutor em política ambiental da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), Bruno Milanez, elevando para sete o número de ocorrências.

Veja mais em https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/01/28/minas-gerais-tem-um-rompimento-de-barragem-a-cada-2-anos-diz-pesquisa.htm?cmpid=copiaecola

Além disso, mostra ao leitor que precisamos buscar mudanças urgentes no nosso estilo de vida para que a atuação humana pare de causar danos irreparáveis ao restante do planeta.

O planeta está sentindo os efeitos da diminuição drástica da ação humana no planeta, pois de acordo com essa reportagem da BBC:

As medições de Lecocq mostram que, desde que as medidas de confinamento começaram a ser aplicadas, o ruído sísmico gerado pelo homem foi reduzido em cerca de um terço.

“Diariamente está em níveis como os dos dias em torno do Natal, quando as escolas estão fechadas e as pessoas estão em casa”, diz Lecocq.

Veja mais em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-52185577

Com linguagem simples num estilo reflexivo, a obra de Ailton Krenak está a disposição gratuitamente pela plataforma da Amazon no formato e-book, para leitores que gostam de uma leitura breve e portadora de uma mensagem profunda.

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Gabriela Raizaro Tosi

É graduada em Letras e Pedagogia, especialista em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (USP), mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP) e pós-graduando em Gestão da Educação a Distancia (UFSCar). Autora de livros e artigos, bordadeira e arteira, publica seus textos nesse site expondo as diversas atividades de uma mente inquieta e um espírito amante dos diversos tipos de manifestação artística.

Barão Vermelho e seus poetas

Frejat escreveu a bela melodia da música ‘O Poeta Está Vivo’ enquanto integrava a banda Barão Vermelho em 1988 enquanto Dulce Quental elaborou a letra. Alguns sites afirmam que essa música veio ao mundo para homenagear Cazuza, que havia retornado de Boston depois de uma crise grave na sua saúde.

Como em todos os textos, podemos ver além das fronteiras objetivas impostas pela história e/ou conotativas, que as palavras possuem.

Segue a letra:

Baby, compra o jornal
E vem ver o sol
Ele continua a brilhar
Apesar de tanta barbaridade

Baby, escuta o galo cantar
A aurora dos nossos tempos
Não é hora de chorar
Amanheceu o pensamento

O poeta está vivo
Com seus moinhos de vento
A impulsionar
A grande roda da história

Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo
Com seus moinhos de vento

Se você não pode ser forte
Seja pelo menos humana
Quando o papa e seu rebanho chegar
Não tenha pena

Todo mundo é parecido
Quando sente dor
Mas nu e só ao meio dia
Só quem está pronto pro amor

O poeta não morreu
Foi ao inferno e voltou
Conheceu os jardins do Éden
E nos contou

Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo

Com seus moinhos de vento

Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo
Com seus moinhos de vento

O poeta não morreu
Foi ao inferno e voltou
Conheceu os jardins do Éden
E nos contou

Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo
Com seus moinhos de vento

Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo
Com seus moinhos de vento

Podemos observar alusão à Divina Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri, nos versos que, assim como lembram a situação de Cazuza, retomam a ideia do poeta que foi ao inferno e voltou, tal qual Dante que, guiado por Virgílio, conhece o Inferno, o Purgatório e o Paraíso, sem ter falecido e ainda nos conta sua jornada, tal qual está na música.

Quando lemos nos versos sobre “mudar o mundo com seus moinhos de vento”, percebemos a ligação com a obra de Cervantes, Dom Quixote.

Eu, particularmente, considero muito bonita a passagem na qual Dom Quixote de La Mancha vai até os moinhos de vento e luta contra eles como se fossem dragões.

Nesse momento da leitura da obra, imagino todos os escritores de prosa e poesia lutando suas lutas por meio da caneta, ou das teclas do seu computador. Lutando para serem lidos, ou para serem ouvidos, ou ainda para serem lembrados.

Talvez as estratégias intertextuais utilizadas nessa música, fazendo ilusão aos “imortais” da literatura, sejam para fazer com que a menção ao Cazuza o colocasse no mesmo templo que os cânones literários habitam, o lugar onde o esquecimento não tem chance.

Claro que  a interpretação que apresento aqui é uma de muitas, há outros que foram na mesma direção, assim como também li alguns que foram em direções diferentes, mas o imprescindível está na reflexão.

Até o próximo enredo!

por Gabriela Raizaro

 

 

Poemas

Vou conduzida pela mão

A locais onde ninguém ousa ir.

Penso em despedidas,

sorrisos e soluços sagazes.

O inesperado me pega numa doçura lilás.

_ E agora?

Me pergunto.

_ E agora resolva-se! Você é grande demais para pedidos de socorro.

Responde a vida em toda a sua efemeridade, dinâmica demais para suportar a demora do choro.

 

por Gabriela Raizaro

Peter Pan e Wendy e Peter Pan em Kensington Gardens de J. M. Barrie: reflexões e desdobramentos pelo tempo

Publicado em 1911, Peter Pan e Wendy é uma história interessante, assim como seus desdobramentos, relações intertextuais, ao longo da história.

Entretanto, Peter Pan em Kensington Gardens, publicado em 1906 e também escrito por James Mathew Barrie, não obteve tanto sucesso quanto à primeira história.

Enredo:

Peter Pan e Wendy

Essa obra se passa em Londres, Inglaterra, local onde moram o Sr. e a Sra. Darling com seus quatro filhos: Wendy, George, John e Michael.

As quatro crianças possuíam uma babá peculiar, a cachorra Nana, que auxiliava a Sra. Darling na árdua tarefa de cuidar dos filhos.

Todas as noites, a Sra. Darling contava histórias sobre príncipes e princesas, fadas e bruxas, para os seus filhos até que eles adormecessem e Nana supervisionava o sono das crianças.

Com o tempo, a Sra. Darling se deu conta de que caía repentinamente no sono e acordava com a janela aberta. Conversando sobre isso com os filhos, os ouviu contar sobre um menino com quem se encontravam sempre: Peter Pan.

Descrente, a mãe das crianças contou-lhes a lenda que envolve esse garoto de cerca de 8 anos, que não deseja crescer e mora com vários outros garotos na mesma situação.

Uma noite, após o Sr. Darling amarrar Nana na casinha, ele e a esposa foram à uma festa.

Como se esqueceram de fechar as janelas, Peter Pan conseguiu entrar no quarto em busca da sua sombra, pois a havia perdido numa noite em que Nana percebeu sua presença e tentou pegá-lo, alcançando apenas sua sombra. Porém desta vez, estabeleceu um interessante diálogo com Wendy, convencendo-a a ir com ele e cuidar de todos os meninos e lhes contar histórias antes de dormir.

A menina desejou muito ir e pediu a Peter Pan que também levasse seus irmãos para conhecer esse novo lugar e se envolverem em novas aventuras com eles. Depois de Peter ensinar a todos como se voa, com a ajudar da ciumenta e grosseira Sininho (nada parecida com a fada retratada pela Disney) todos foram para o local onde Peter Pan morava com os meninos.

Durante a jornada, passaram pelo navio do temido Capitão Gancho, James Roger, um temido e perigoso pirata de quem Peter Pan arrancou a mão durante uma luta e deu ao jacaré que estava próximo do navio.

O capitão Gancho odeia Peter Pan pela sua prepotência e pela eterna perseguição que esse jacaré lhe faz, pois ele gostou tanto da sua mão que deseja comer todo o resto, mas ele sempre consegue fugir do jacaré porque ele comeu um relógio, então quando Gancho ouve o tic-tac já sabe que deve fugir do perigo iminente.

Nesse momento, em que as crianças passavam próximo do temido navio, Sininho fez questão de chamar a atenção dos piratas para Wendy, pois estava com muito ciúme da amizade dela por Peter.

Apesar das dificuldades, as crianças conseguiram chegar a salvo na ilha onde Peter Pan morava e conheceram os outros meninos. A menina era a única moça que morava na caverna, sim… eles moravam em uma caverna muito interessante embaixo da terra e entravam nela por meio de uma árvore oca preparada especialmente para cada habitante da caverna por Peter Pan.

Muitas aventuras ocorreram, todos viviam bem, mas a saudade dos pais chegou e Wendy, George, John e Michael passaram a sentir falta dos pais, de Nana e da sua casa aconchegante.

Spoiler:

Ao tentarem voltar para casa com os meninos da ilha que também desejaram ir, caíram em uma emboscada feita pelo Capitão Gancho na qual foram feitos reféns na tentativa de atrair Peter Pan.

Peter conseguiu entrar no navio, salvar as crianças, mas não desejou ir com elas. Ficou com Sininho na ilha na promessa de uma vez ao ano buscar Wendy e levá-la para sua casa a fim de ouvir suas histórias.

Wendy cresceu, ficou uma bela moça, se casou e teve uma filha, que passou a visitar Peter Pan quando este a buscava para lhe contar as tão adoradas histórias.

Peter Pan em Kensington Gardens

Esta obra, inicia seu enredo apresentando Kensington Gardens com extensa descrição sobre o lugar e as opções de lazer que ele apresenta para crianças.

Depois dessa descrição, Peter é descrito na primeira fase da sua infância como uma criança que andava em uma cabra e conta um pouco sobre como ele é velho, pois nasceu há muito tempo e ninguém se dá conta disso porque ele não envelhece (a obra salienta sempre que ele ainda possui todos os dentes de leite).

Também vai contar sobre alguns dos dotes que Peter Pan possui, ele fala com pássaros, seu primeiro contato com as fadas, e que passou seus primeiros anos de vida vivendo no Kensington Gardens com esses seres encantados.

Esse livro não traz grandes aventuras, ou informações indispensáveis sobre Peter Pan, trata do início da vida do personagem e de como foram seus primeiros anos de vida, pois escapou voando pela janela da sua casa aos sete dias de idade, explicação diferente é dada para a origem dos meninos perdidos em Peter e Wendy porque afirma-se nesse outro livro que todos eles são bebês que caíram dos seus carrinhos.

Spoiler:

Maimie, uma menina que morava próximo ao Kensington Gardens, é levada para este jardim que Peter tinha por casa e os dois vão conversar, inclusive diálogos bem parecidos com os diálogos encontrados entre Peter e Wendy são encontrados na sua conversa com Maimie, e o garoto vai contar que tentou voltar para casa, mas achou sua janela fechada – sinal de que sua mãe tinha se esquecido dele – então resolveu morar em Kensington.

Ao contrário de Wendy, Maimie não aceita ficar um período com Peter e volta para a casa dos pais.

Fonte: Berrie, J. M. Peter e Wendy seguido de Peter Pan em Kensington Gardens. Tradução de Rodrigo Breunig. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.

Desdobramentos pelo tempo

Peter Pan é um personagem tão interessante que chegou a ser tema de um dos filmes da Disney, de nome homônimo, lançado em 1953, com um Peter não tão arrogante e uma Sininho educada e encantadora.

Além disso, o jogo Legend of Zelda, franquia de sucesso que está há muitos anos no mercado encantando gerações, criado por Shigery Myamoto e Takashi Tezuka, tem seu protagonista, Link, inspirado em Peter Pan tanto em aparência, quanto em personalidade. Com uma ressalva, o criador do personagem é um grande fã da Disney e se inspirou no Peter Pan conforme ele mesmo afirma em entrevista concedida à Nintendo.

Se você manjar de inglês, leia na íntegra em https://nintendoeverything.com/link-design-inspired-by-peter-pan-name-explained/ (acesso em 19 de julho de 2018 às 11h53).

Talvez, o estilo de vida e a personalidade de Peter Pan tenham inspirado também o escritor Jorge Amado na criação dos seus Capitães da Areia, publicado em 1937, que narra a história de um grupo de meninos de rua que vivem em uma construção abandonada no Estado brasileiro da Bahia.

Esses garotos são liderados por Pedro Bala, que é um rapaz corajoso e sonhador (Peter Pan voava literalmente, mas Pedro Bala voava com a imaginação e o idealismo que o caracterizava, pois assim como Peter idealizava a infância, Pedro Bala idealizava o seu grupo e, posteriormente, a militância política).

A única menina a integrar o bando, Dora, assim como Wendy se apaixona por Peter, se apaixona por Pedro, líder dos Capitães da Areia e também vai para o grupo de garotos acompanhada, leva seu irmão com ela.

Assim como os meninos perdidos, todos os meninos liderados por Pedro Bala são órfãos.

Fonte: AMADO, Jorge. Capitães da Areia. São Paulo, Companhia das Letras: 2008.

Enfim… li esta obra, me encantei com os meninos perdidos e fiquei muito curiosa com essa obra de 107 anos, pois é exatamente esta a idade que Peter e Wendy completam neste ano.

Leia você também e deixe nos comentários o que você achou sobre o texto ou sobre o post.

Até o próximo enredo!

Por Gabriela Raizaro

Obs.: encontrei na internet esse artigo que relaciona a obra literária brasileira com Peter Pan (ou seja, existem sim pesquisadores produzindo textos sobre o assunto), segue o link para você:

Clique para acessar o 2015_1456150896.pdf

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